reflexos da reeleição de Dilma

Para os desavisados fica a lembrança: em um regime democrático existem ganhadores e perdedores, é ínsito ao sistema. Há de se respeitar a vontade das urnas. Inclusive, um dos maiores avanços civilizatórios que o jogo democrático nos lega é justamente a possibilidade do convívio pátrio entre quem vence uma disputa política e quem perde. Em outros modelos políticos não: a vitória só é alcançada plenamente com a aniquilação política ou física das oposições. Amadureçam suas cabeças, não fujam para Passargada, Uruguay ou Tibet… não é necessário, a democracia solicita vozes dissidentes.
Todavia, a corrida eleitoral que se encerra tem um saldo positivo a meu ver. A vitória não consiste na eleição de A ou B, mas sim no debate político que se deu nas ruas, nos bares, nas barbearias, etc. Essa inserção de consciências no jogo político robustece o modelo democrático. Esse mosaico de opiniões é novidade para nós todos. Se é resultado das novas tecnologias de informação ou da rotinização do mecanismo eleitoral, o fato é que os brasileiros (pelo menos os que eu conheço) hoje falam sobre política.
Contudo, as manifestações de desprezo e ódio que se tem dado às populações do norte e do nordeste brasileiro é algo inadmissível. Da mesma forma que votar em Aécio não faz uma pessoa ser menos politizada, votar em Dilma não faz uma pessoa ser menos capaz cognitivamente. São opiniões pessoais, cálculos políticos, adesões emocionais nessa ou naquela candidatura. Há de se ter ponderação. Que bom que podemos conviver com o divergente/diferente de nós mesmos, isso nos engrandece como seres humanos.
É um erro de inteligência achar possível que a vitória do PT nessas eleições se deu por conta do “bolsa-familia”. Não se ganha uma eleição acirrada como essa nesses termos. Fato, é que a população que foi as urnas, em sua maioria relativa, escolheu o projeto de governo apresentado por Dilma Rousseff. A expansão das políticas públicas, a manutenção das taxas de emprego e desemprego, a ação coordenadora do Estado na economia, e uma maior assistência para com as camadas populacionais mais vulneráveis economicamente devem compor as características gerais desse mandato que se inicia em janeiro de 2015. Não acredito, porém, que o PT tenha força política para empreender reformas estruturais que necessitamos, como a tributária, a política e a reforma previdenciária. Devemos acompanhar uma dobra da aposta do que vem se dando até o momento nesses últimos doze anos.

Apenas um último dado aos desavisados: os pobres no Brasil historicamente possuíam um voto à direita. Tanto que Tim Maia (aquele que vai do Leme ao Pontal) cunhou a frase: o Brasil é o único país que prostituta se apaixona, cafetão tem ciúmes, traficante se vicia e pobre é de direita. Talvez, o alinhamento das camadas mais populares ao modelo de governo empreendido pelo PT seja sim uma forma de tomada de consciência. Não de uma forma idealista, mas pragmática. Respeite-se a voz das urnas, mas também a condição humana e cultural das populações nordestinas.

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