Libertem Barrabás

 

“Esta construção não é só física, mas também espiritual” disse Dilma em cadeia nacional de rádio e televisão. A presidenta introduziu assim a palavra “espiritual” ao léxico político de seu novo governo.

Por ocasião do Dia da Mulher, Dilma fez seu segundo melhor pronunciamento ao povo brasileiro. Cá com meus botões, continuo pensando que em junho de 2013, no auge dos protestos, a presidenta fez sua aparição mais contundente como estadista convencida a aprofundar o “republicanismo cordial e periférico” que caracteriza o projeto popular a frente do Executivo. É uma pena que Dilma tenha sido abandonda pelos demais poderes e que aquela agenda de pactos propostos por ela não tenha se concretizado em plenitude. Muito mais triste ainda é que parte do país que já “torcia contra” partiu decisivamente para a sabotagem, promovendo uma verdadeira guerra narrativa contra seu governo e contra a imagem pública da presidenta e seu partido. Houvéssemos somado esforços ali, naquele momento de explosão multitudinária de desejos coletivos em mutação, certamente já teríamos dado passos para superar este esgotamento evidente do ciclo iniciado por Lula, experimentando novos rumos na urgência de construirmos novas institucionalidades capazes de modificar com profundidade o sistema político, judicial e midiático.

Dilma nos governa num mundo que vive a maior e mais duradoura crise econômica desde a Grande Depressão de 1929 atingindo as economias mais sólidas do capitalismo desenvolvido. Ainda assim, o Brasil tem hoje a menor taxa de desemprego de toda nossa história e 22 milhões de brasileiros saíram da extrema pobreza nos últimos 4 anos. Nos seu primeiro mandato, preparávamos o país para o caos que explodiria na Copa. Mas Dilma insistia: confiem no Brasil, faremos a Copa das Copas, a melhor já feita até aqui. Pois bem! O mundo veio ao Brasil e nos aplaudiu. O mundo amou o Brasil. E nós? O que fizemos? Mandamos Dilma “tomar no cu” diante dos olhos de todo o mundo.

Enquanto a primeira mulher reeleita para o posto mais alto da nação fazia seu pronunciamento do 08 de março, uma parte do país gritava xingamentos nas janelas e a ofendia deste modo desrespeitoso e grosseiro a todas as mulheres e o caminhar de nossa democracia.

Mas não tem nada não! Todos podemos imaginar o que um torturador fardado é capaz de fazer a uma jovem mulher nos porões do autoritarismo e da desumanidade. Foi lá, na dor mais cruel da luta política, que o Brasil preparou o coração valente da primeira mulher a comandar o país. Ela, como poucos de nós, sabe que o Brasil não é para amadores! É justamente este coração de mulher e mãe, preocupado com uma família de 200 milhões de brasileiros, que faz Dilma optar por um ajuste econômico a contragosto do que ela própria gostaria de fazer. Sem maioria legislativa, com o judiciário avançando na criminalização da polítca e com a mídia em guerra narrativa para aprofundar a crise e nos imobilizar.

Dilma, na solidão multitudinária deste seu projeto político tão feminimo e vitorioso pretende repactuar o país após a profunda polarização eleitoral que lhe deu um novo mandato. Ela insiste num novo ciclo republicano “cordial” que talvez já seja realmente impossível. Mesmo com todos os acenos e concessões já feitos neste início de governo, ameaçando inclusive retardar a redução das desigualdades e manter privilégios históricos, a elite não quer pacto social nem governabilidade. A gritaria da Casa Grande tornou-se insuportável e os mais ricos radicalizam sua estratégia de ódio e desconfiança para nos dividir mais ainda e conduzir o governo ao colapso.

O andar de cima busca inviabilizar assim a agenda das reformas estruturais historicamente negadas ao país. Vejam quanta ironia! Estamos num pré-reformas de base 2.0! Cinquenta anos depois, o ambiente político construído no Brasil é de guerra narrativa tal como fou feito contra Getúlio e Jango.

A história só se repete como tragédia ou como farsa. Nem Dilma é Jango, nem somos uma republiqueta privada. O 2.o governo Dilma marca o mais longo período ininterrupto de legalidade democrática no Brasil. São já 30 longos anos de fortalecimento institucional. Presidenta, desligue a TV e não perca mais tempo nem dinheiro público com os jornais e revistas que conspiram permanentemente contra o interesse público do país. A batalha que precisamos travar na comunicação já ocorre porque a sociedade não esperou a regulação da mídia e já teceu novas redes para o fluxo da informação descentralizada, democrática e polifônica. É preciso, entretanto, fortalecer e ampliar este novo ambiente de mídia que será decisivo nas disputas de sentido e modos de vida que o século XXI nos impõe a toda a humanidade.

Só uma Dilma muito mais próxima de seus eleitores, percorrendo sistematicamente o país, mobilizando pelas mudanças desejadas, estimulando o debate construtivo e erguendo uma nova arquitetura de participação é quem poderá liderar um novo ciclo de conquistas sociais no desenvolvimento de novos arranjos produtivos, novas formas coletivas de vida institucional e novas tecnologias sociais que só poderão nascer aqui, no País do Remix de todas as humanidades que pode e deve apresentar soluções e caminhos originalmente novos para todo o mundo. É o caminho da evolução espiritual do Brasil e de todos nós que habitamos este planeta vivo. A crise é de valores, mas nós havemos de amanhecer. Um dia ainda seremos humanos e evoluíremos também espiritualmente, porque permanecemos intoxicados de ódio justiceiro: “Libertem Barrabás! Crucifiquem-na!”

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