15 de março, Dia Nacional do Livro de História.

Os protestos de hoje mostram mais uma vez muitas conjunturas da nossa política:
– A indignação com a corrupção é extremamente seletiva; desconheço qualquer ato substancial que critique algum foco de corrupção além daquele do PT. Aliás, evidentemente não me surpreendo, dado que o PP e o PSDB apoiam o movimento. Assim, o discurso anti-corrupção na verdade, não refere-se a qualquer preocupação com a corrupção, mas sim com a insatisfação por ter perdido nas urnas.
– Ataque contra a democracia: a principal bandeira do movimento é o impeachment da presidente Dilma, ainda que não exista uma tese jurídica forte que o apoie (aquele parecer inicial foi facilmente derrubado). Parece, mesmo, que os eleitores do Aécio ainda não se conformaram com o resultado, já que não há condição jurídica que possa fundamentar um processo de impeachment. Como se não bastasse, ainda há um grupo – que não é de forma alguma pequeno – que pede a volta da ditadura ou o que eles chamam de uma forma eufemista de “intervenção militar”.
– Oposição ao governo da mídia: a Globo, por exemplo, está fazendo uma cobertura inacreditável das manifestações. A cada momento há alguma informação sobre isto. No dia 13, quando também houve manifestações similares, o movimento foi apenas secundário na programação. Não me parece coincidência; na realidade, parece mais um reflexo da campanha anti-PT assumida pela grande mídia brasileira. Nas manifestações em Santa Maria, aliás, preciso registrar que ouvi agradecimentos feitos em público à cobertura do movimento pela grande mídia local.
É claro que há várias razões para estar descontente com a presidência. Contudo, daí a pedir ou apoiar um movimento que peça um impeachent – ou melhor, um golpe- há uma linha abissal. Eu mesmo estou bastante descontente com as recentes medidas econômicas pró-mercado desenvolvidas pelo governo, divergindo bastante de sua trajetória novo desenvolvimentista recente e do que foi prometido durante a campanha eleitoral. Apesar disso, acho que esta não é uma preocupação dos manifestantes hoje, tendo em vista que muitos dos discursos econômicos envolvidos são justamente pró-mercado.
A corrupção também, dentre muitos outros, é uma crítica inafastável do governo federal. Contudo, ela jamais é exclusiva do PT, muito menos foi criada por ele. Aliás, a lista da operação lava-jato fala quase que por si mesmo, já que revelou-se a grande participação do PP (um dos partidos que gosta de fazer um discurso anti-corrupção…). Mais longe, o próprio Aécio Neves – outro que adora de fazer um discurso anti-corrupção e anti-PT – também esteve envolvido em escândalos de corrupção. É assim que, se o movimento realmente estivesse procurando combater a corrupção, ele deveria estar pedindo reforma política, não um golpe.
Preciso, por fim, novamente expressar minha preocupação com a democracia. Não resisti e fui ver as manifestações na cidade. Chegando, ouço um discurso pedindo intervenção militar. Mais do que isso, uma quantia bastante grande de pessoas gritou fervorosamente favorável ao discurso. Cartazes repetindo a proposta também foram muitos que eu pude ver. Está escancarado mesmo as tendências golpistas e, mais do que isso, autoritárias que o movimento assume, embora não seja sua unidade que apoie estas correntes. Nem todos apoiam um regime militar, claro, mas também não são poucos que o desejam.
Também pude ouvir discursos liberais contra o “Estadão-malvadão” (sic). Pode parecer estranho discursos de liberdade estarem em um mesmo espaço que discursos pró-ditadura, por exemplo. Na verdade, não me surpreende, e a história latino-americana conhece bem essa compatibilizaçao de liberdades (econômicas) com regimes ditatoriais.

É gente, parece que hoje era melhor mesmo ler um livro de história do que ir pra rua.

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