Marx e Gramsci não podem redimir os tolos

 No Brasil, desde a época dos Tenentes que a classe operária, salvo honrosas exceções, tem sido seduzida pela burguesia e cooptada pelo Estado. Não são poucos os que se deixam seduzir, cooptar e se deslumbram – já foi dito que “A classe operária vai ao paraíso.” Foi?
Não podemos confundir as alianças da classe operária – estratégicas ou oportunistas – de outros tempos, no entanto, com as recentes, tampouco, rebaixar as suas lutas e bandeiras históricas. A hegemonia centro-esquerda da burguesia engajada é um fenômeno recente, resulta da democratização – Estado burguês de direito – e Globalização. Os “revolucionários” de ontem dissimulam hoje a defesa da “democracia”, “governabilidade”, “sustentabilidade” – corroboram o fim da história! Filho mimado da geração 68 – pós-modernismo. Coisa indefinida que se situa entre o velho (68) e o novo (02) e que acomodou-se a sua indefinição fazendo dela a sua teoria e práxis. Em nome do poder apela-se deliberadamente até para Maquiavel, rebaixando as suas teses em favor de inconfessáveis projetos pessoais, como se ele fosse o salvador dos cínicos, depravados, oportunistas e pudesse redimir a realidade!
Conforme o seu caráter típico, a burguesia brasileira não destrói, ela compatibiliza o tradicional com o “novo.” Seduz, compra e incorpora as novas gerações conforme os seus interesses, valores e procedimentos. Ao receber o impulso de novas forças sociais freia-lhes o ímpeto, de modo a adapta-la as liturgias e mesuras do poder – “governabilidade.” Juntam-se peças decrépitas e antagônicas com ideias supostamente de vanguarda, “remendo de pano novo em roupa velha.” O velho e o novo, juntos reinventando a historia de acordo com as conveniências, adaptando-se aos novos tempos e as entranhas do poder.
A expansão da “sociedade civil organizada” – antes em torno de interesses -, como requisito do democratismo nominal se dá nesse contexto e nessas condições. Presta-se ao medíocre papel de apoio, sendo mais ou menos valorizada conforme base de sustentação que assegure ao poder legitimidade ou a adesão das massas. Faz o jogo do poder em troca de prestígio, privilégios, subsídios e recursos. Engana-se quem pensa que se tratam de afinidades ideológicas, meras veleidades! A sociedade civil profissionalizou-se. Submeteu-se docilmente as exigências impostas pelo mercado global – tendências, competitividade, normas técnicas e legais. Perverteu a sua vocação, caráter, funções. Aboliram deliberadamente a política do movimento social e popular em troca do lucro, do assistencialismo clientelista e da cidadania tutelada! A inserção desses grupos se dá por meio da mobilização de interesses e não em torno de propostas políticas. Manipula, não mobiliza, faz o trabalho sujo que antes era da polícia e dos capatazes. Conforme corroboram a demagogia politicamente correta, utiliza-se de eufemismos, apresentando-se como “interlocutores, representantes, defensores dos interesses da sociedade ou do bem comum,” como se fosse mera questão de semântica ou incorporação a ordem! Intermediários, monopolizam os canais de acesso direto ao poder dos extratos populares, canalizam demandas, diluem conflitos, escamoteiam contradições, desmobilizam e esvaziam o conteúdo ideológico do debate político.
A jovem burguesia é hoje a vanguarda do movimento social. Os principais representantes do segmento mais articulado com o poder e organizado em termos de penetração na sociedade e mobilização de recursos financeiros, humanos e técnicos a semelhança das grandes corporações privadas atende pela sigla de ONG. É o chamado Terceiro Setor que hoje constitui expressiva fatia do mercado de trabalho da pequena burguesia incrustada nas vísceras do poder. Os “bons burgueses” de ontem são a burguesia politicamente correta engajada de hoje, parceira da esquerda indolente,  reformista e conciliatória. Nenhuma novidade, a sociedade civil organizada continua classe média como sempre! A classe média, por sua vez, continua a mesma da época áurea da elite ilustrada! Tanto nos gostos e hábitos que a definem quanto no desprezo a crítica e o apreço a superficialidade e falta de originalidade!

No contexto da hegemonia centro-esquerda o funcionamento da lógica é simples, basta que se pronunciem as palavras mágicas e/ou categorias que produze-se efeito encantador, a um só tempo dispensando maiores argumentos inconvenientes,  abonando o discurso e a conduta. Nesse caso, Terceiro Setor e hegemonia estão para Gramsci como trabalho e socialismo para Marx, simples assim – desqualificando e rebaixando as teses e o debate! Apelar para seus conceitos a despeito da teoria e, sobretudo, da práxis contraditória, transformando-os em “chavões” é inerente a cantilena do esquerdismo vulgar e indolente! Assim, a burguesia politicamente correta e engajada joga para platéia, desqualificando e abusando de teorias, conceitos, estratégias e, sobretudo, das causas e lutas da classe trabalhadora. Pratica o estelionato intelectual e político como demonstração de reserva ética. Servem apenas, porem, como meras palavras do repertório subtraído pelo Terceiro Setor cujo significado não tem, paradoxalmente, relação alguma com a prática! São na verdade, antagônicos e incompatíveis!
Reivindica-se de forma leviana até a estratégia política – a tese das “fissuras” – de Gramsci para justificar a indolência e o oportunismo como ação tática! Grosso modo, em Gramsci um bloco hegemônico não é uma construção compacta, resiste às tensões e atritos de outros “blocos” quando medem forças. Esses choques, porem, causam fissuras e espaços por onde se pode incorporar em seu interior elementos que progressivamente podem transformar ou abalar a ordem político-econômica – sociedade política – por meio da cultura – sociedade civil. Simples, não fosse pelo fato que para isso se exigem disciplina intelectual e ética, em outras palavras, elevada coerência entre o discurso e a práxis! Antigamente denominava-se esse tipo de postura por oportunismo, desonestidade intelectual, estelionato político ou ignorância pura simples que quando se exime de má-fé, não reduz o prejuízo! Ao contrario, desqualifica-se a teoria e a ação! Como se fosse possível a incorporação dos hábitos e valores burgueses como subsídios a estratégia de ação, conforme as personagens das tramas dos livros de Malraux! Disfarçam tão bem que esquecem-se de se despir do disfarce! A máscara cola a cara e o gosto pela boa vida burguesa seduz! O apreço pelo poder igualmente corrompe, sobretudo aqueles dados a bravatas, demagogia, perfumaria e a cartilha politicamente correta burguesa! Não se iludam, a luta de classes é uma realidade, o poder e o acesso a ele continuam reservados as elites e a classe media nunca representou ou representarão os interesses populares, Marx e Gramsci não podem redimir os tolos, muito menos os cínicos e oportunistas.
Mario Antônio- Sociólogo
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