Trecho do livro As Origens do Pensamento Grego.

Se na Grécia Antiga tínhamos a figura do Sábio, hoje temos, nessa ágora “pós-moderna” chamada Facebook, a figura do Sabido: aquele que julga ser o legítimo herdeiro de Hesíodo, aquele cujas Musas escolheram, pensa ele, para revelar os mistérios e verdades do mundo — não sendo, portanto, passível de autocrítica de quaisquer naturezas. Está lá ele, um Colosso no píncaro do Olimpo, ditando A solução para a miserável ordem do mundo, pregando suas decifrações orgásticas, paradisíacas, realizáveis através da revolução “democrática” e das mentes cujo mentor e condutor intelectual é, por óbvio, ele próprio:

“Os ensinamentos da Sabedoria, como as revelações dos mistérios, pretendem transformar o homem no íntimo, elevá-lo a uma condição superior, fazer dele um ser único, quase um deus, um theios anér. Se a cidade se dirige ao Sábio, quando se sente entregue à desordem e à impureza, se lhe pede a solução de seus males, é precisamente porque ele lhe aparece como um ser à parte, excepcional, um homem divino que todo seu gênero de vida isola e coloca à margem da comunidade. Reciprocamente, quando o Sábio se dirige à cidade, pela palavra ou por escrito, é sempre para transmitir-lhe uma verdade que vem do alto e que, mesmo divulgada, não deixa de pertencer a um outro mundo, estranho à vida ordinária. A primeira sabedoria constitui-se assim numa espécie de contradição em que se exprime sua natureza paradoxal: entrega ao público um saber que proclama ao mesmo tempo inacessível à maior parte. Não tem ele por objeto revelar o invisível, fazer ver esse mundo dos ádela que se dissimula atrás das aparências? A sabedoria revela uma verdade tão prestigiosa que deve ser paga ao preço de duros esforços e que fica, como a visão dos epoptas, oculta aos olhos do vulgo; exprime certamente o segredo, formulando-o em palavras, mas o povo não pode apreender seu sentido. Leva o mistério para a praça pública; faz dele o objeto de um exame, de um estudo, sem deixar, entretanto, completamente de ser um mistério. Aos ritos de iniciação tradicional que proibiam o acesso às revelação interditas, a sophia e a filosofia substituem outras provas: uma regra de vida, um caminho de ascese, uma via de pesquisa que, ao lado das técnicas de discussão, de argumentação, ou dos novos instrumentos mentais como as matemáticas, conservam em seu lugar antigas práticas divinatórias, exercícios espirituais de concentração, de êxtase, de separação da alma e do corpo.” (VERNANT, Jean-Pierre. As Origens do Pensamento Grego. p. 40)

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